Crónicas do Falar
II (Eis o preço das palavras.)
O saber não ocupa lugar. E o saber ler ou casualmente exprimir ideias num tom mais formal também não.
—Olha lá aquele, só palavras caras sabe dizer; parece palhaço, ninguém o percebe…
Pois… Isto é um facto bastante curioso, interessante por trivial, trivial por sem interesse, sem interesse por gostar eu muito de paradoxos. Mas passemos então à situação-problema, situação-ingenuidade, à situação erradamente mal interpretada: o preço das palavras.
Não será necessário demonstrar, pois quem não o sabe, que há, por parte da população mais jovem, estudante, um certo menosprezo perante uma língua mais invulgar na gíria comum, uma certa –digamos— erudição do falar; aquilo a que é no corrente “falar caro”, por “palavras caras”.
Ora por mim até tudo estaria certo; teorias várias e lógicas há-as no mundo, há senão é quando não podem ter, não têm fundamento.
Palavras caras? Acaso têm preço as palavras?
Ah!, é lógico, claro, ah!, como me esquecia disso, óbvio óbvio óbvio: são umas maiores do que outras, ora isso implica relativo maior ou menor gasto de tinta ao escrevê-las, mais saliva ao pronunciá-las, eis que sai muito caro uma caneta, eis que sai muito cara a comida, combustível das funções orgânicas humanas.
Mas não é isto, não. Não é isto a que se referem os acusadores. Referem-se eles a palavras que só complicam o discurso, que o mistificam em teias enevoadas e de díficil percepção, muito paleio e pouca luz, ou como diriam outros, muita parra e pouca uva, pouca informação, muita snobice, dizem, muita cromice.
E não duvido que seja possível, assim, ser desnecessário algum vocábulo aqui ou acolá –mas sempre?, raras vezes?... … dependerá isso do texto, do autor, da intenção; o certo é que tenho de atribuir esta rejeição negligente à falta de leitura e vontade em compreender as palavras e seus significados. É, por outro lado, sabido que se há milhões de palavras há milhões de razões para tal, uma para cada uma (podemos mesmo, naquelas chamadas sinónimos, achar uma, mesmo que minúscula, diferença de carácter, ideia, objecto, sentimento que se pretende transmitir entre elas.
Tomemos o exemplo: «Será diuturno e indelével o nosso cálido amor, ou terá precocemente ocaso?». Agora contemos: 12 palavras. Doze.
Fazendo uma tradução aproximada (rua com as palavras ditas dispendiosas): «Será que o nosso quente amor durará muito tempo e que é impossível de se apagar, ou terá, ele que é como que uma estrela, precoce fim?». Agora contemos: 27 palavras. Vinte e sete. Mais do que o dobro, para que a informação não seja muito deturpada. Uma coisa não é outra. Mas agora, afinal de contas, digam-me lá… Quais são as palavras caras? Não serão mais as segundas!?...
E porque havemos nós de continuar a viver num discurso infantil de raciocínio, cujo léxico diminuto enferruja a nossa capacidade, competência verbal e inteligente? (Poucas palavras, poucas ideias, poucas paixões.).
Há um sentimento geral de impaciência e pouca vontade de explorar perante a literatura, perante a poesia, et caetera, mas realmente, o saber não ocupa lugar. E o saber ler ou casualmente exprimir ideias num tom mais formal também não.
O saber não ocupa lugar. E o saber ler ou casualmente exprimir ideias num tom mais formal também não.
—Olha lá aquele, só palavras caras sabe dizer; parece palhaço, ninguém o percebe…
Pois… Isto é um facto bastante curioso, interessante por trivial, trivial por sem interesse, sem interesse por gostar eu muito de paradoxos. Mas passemos então à situação-problema, situação-ingenuidade, à situação erradamente mal interpretada: o preço das palavras.
Não será necessário demonstrar, pois quem não o sabe, que há, por parte da população mais jovem, estudante, um certo menosprezo perante uma língua mais invulgar na gíria comum, uma certa –digamos— erudição do falar; aquilo a que é no corrente “falar caro”, por “palavras caras”.
Ora por mim até tudo estaria certo; teorias várias e lógicas há-as no mundo, há senão é quando não podem ter, não têm fundamento.
Palavras caras? Acaso têm preço as palavras?
Ah!, é lógico, claro, ah!, como me esquecia disso, óbvio óbvio óbvio: são umas maiores do que outras, ora isso implica relativo maior ou menor gasto de tinta ao escrevê-las, mais saliva ao pronunciá-las, eis que sai muito caro uma caneta, eis que sai muito cara a comida, combustível das funções orgânicas humanas.
Mas não é isto, não. Não é isto a que se referem os acusadores. Referem-se eles a palavras que só complicam o discurso, que o mistificam em teias enevoadas e de díficil percepção, muito paleio e pouca luz, ou como diriam outros, muita parra e pouca uva, pouca informação, muita snobice, dizem, muita cromice.
E não duvido que seja possível, assim, ser desnecessário algum vocábulo aqui ou acolá –mas sempre?, raras vezes?... … dependerá isso do texto, do autor, da intenção; o certo é que tenho de atribuir esta rejeição negligente à falta de leitura e vontade em compreender as palavras e seus significados. É, por outro lado, sabido que se há milhões de palavras há milhões de razões para tal, uma para cada uma (podemos mesmo, naquelas chamadas sinónimos, achar uma, mesmo que minúscula, diferença de carácter, ideia, objecto, sentimento que se pretende transmitir entre elas.
Tomemos o exemplo: «Será diuturno e indelével o nosso cálido amor, ou terá precocemente ocaso?». Agora contemos: 12 palavras. Doze.
Fazendo uma tradução aproximada (rua com as palavras ditas dispendiosas): «Será que o nosso quente amor durará muito tempo e que é impossível de se apagar, ou terá, ele que é como que uma estrela, precoce fim?». Agora contemos: 27 palavras. Vinte e sete. Mais do que o dobro, para que a informação não seja muito deturpada. Uma coisa não é outra. Mas agora, afinal de contas, digam-me lá… Quais são as palavras caras? Não serão mais as segundas!?...
E porque havemos nós de continuar a viver num discurso infantil de raciocínio, cujo léxico diminuto enferruja a nossa capacidade, competência verbal e inteligente? (Poucas palavras, poucas ideias, poucas paixões.).
Há um sentimento geral de impaciência e pouca vontade de explorar perante a literatura, perante a poesia, et caetera, mas realmente, o saber não ocupa lugar. E o saber ler ou casualmente exprimir ideias num tom mais formal também não.
Edward Gonçalves Pinto

Muito bonito e realista!!